05/02/11

Sob o Capital, a liberação sexual é a farsa do comércio do sexo liberado

Todos nós, de esquerda ou direita, que fomos politizados em fases anteriores aos anos 70 do século passado, nos habituamos a antagonizar Freud e Marx. Ou vale um ou vale outro. Isto é obra dos epígonos dos dois lados, aqueles divulgadores medíocres que, por preguiça, malícia ou pura incompetência “reduzem” as teorias dos respectivos mestres a uma série indigesta de slogans ou palavras de ordem que passam a constar de cartilhas destinadas à conquista de novos militantes.

Assim, pela direita, defendia-se fervorosamente que a rebeldia contra Sistema, tinha muito mais a ver com um choque edipiano de gerações do que com a luta de classes e os fatores econômicos E, pela esquerda, os mais empedernidos, numa ação reflexa, ignoravam toda a teoria freudiana, assim como até hoje há ingênuos que ignoram Darwin.

De um lado, via-se a revolta juvenil, mesmo quando ela ganhava as ruas, como um distúrbio temporário de comportamento: nada que um bom divã ou uma boa carteira de trabalho não possam resolver. Do outro lado, torcia-se o nariz para a teoria dos complexos de infância: frescura de burguês: nada que uma enxada e uma vassoura na mão não possam resolver.

Não me tomem por leviano, nem pensem que pretendo reduzir nossa discussão a uma sucessão de frases jocosas. Só direi que um pouco de vaselina não faz mal a ninguém. E, dito isto, reparem na frase de Freud aí em baixo:

“A força propulsora básica da sociedade humana é, em última análise, econômica: já que a sociedade não possui reservas suficientes para manter seus membros sem que eles trabalhem, precisa limitar o número desses membros e desviar suas energias da atividade sexual para o trabalho. Esta é a eterna e básica exigência da vida, que persiste até hoje”. Assim, pois, ele explicava, nas razões econômicas (uma tese marxista), a origem primeira da repressão sexual que dá origem aos complexos por ele estudados.
Pelo lado de Marx, é conhecida sua teoria sobre a luta de classes, o motor da História. Luta esta que faz com que o Sistema internalize (geralmente via religião) no núcleo familiar básico, sua ideologia e, portanto, sua repressão. Eis ai como Marx antecipa, a figura repressora tão conhecida hoje do pai-patrão que, por sua vez, está no núcleo da teoria edipiana.

O leitor mais inteligente – e felizmente todos os meus o são – já deve ter concluído que não faz sentido falar em liberação sexual apenas, desvinculando-a da outra repressão (opressão) que corre em paralelo: a exploração do trabalho alienado, aquele que vendemos apenas para comer e dar de comer aos filhos, sem fazer qualquer tipo de consideração sobre se este tipo (ou quantidade) de trabalho é realmente necessário para a melhoria da qualidade de vida da humanidade como um todo.

Na verdade, o trabalho alienado e seu excedente têm como função essencial (exclusiva) propiciar a acumulação do Capital. Trata-se, portanto, de uma disfunção. Disfunção esta que destrói a Natureza, assim como o câncer (produção excedente de células) destrói o corpo humano.

De tudo isto, pode-se chegar à conclusão de que a liberação sexual,  representa importante avanço cultural, psicológico e também político, como é o caso das mulheres e dos homosexuais. Mas não é só isto: o realmente importante é que, cedo ou tarde, este processo é canalizado para a luta ideológica. Entretanto, na atual fase, a liberação sexual ainda está muito mais para a farsa que consiste em fazer supor que estamos sendo liberados, quando continuamos presos ao fetiche na maioria dos casos. E isto transforma a liberação em mera libertinagem.

Até agora, o que ocorreu de forma realmente consistente foi a liberação da comercialização degradante e desenfreada do sexo. Sexo que, enquanto mercadoria que é na sociedade dominada pelo Capital, representa um negócio planetário superior ao do petróleo.

A mídia capitalista aposta na nossa liberação para continuar com a venda crescente de suas mercadorias sexuais, principalmente as de carne e osso. Mas não quer que concluamos que a liberação real só ocorrerá quando mandarmos a exploração capitalista para o espaço.

Por Francisco Barreira

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- Dinastias Midiáticas -

Na imprensa brasileira mandam as dinastias estamentais. Os pais proprietários entregam a direção dos jornais, das revistas, das rádios e das televisões – das suas empresas – aos seus filhos, que repassam para os netos, perseverando todos no direito que se auto-atribuíram de decidir quem é e quem não é democrático, quem fala e quem não fala em nome da nação!

Assim tem sido ao longo de toda a história da imprensa no Brasil. No momento mais decisivo da história do século XX, em 1964, essas dinastias pregaram e apoiaram o golpe militar, assim como a instalação de uma longa ditadura, que mudou decisivamente os rumos do nosso país. Enquanto os militares intervinham nos poderes Judiciário e Legislativo, enquanto suspendiam todas as garantias constitucionais, enquanto fechavam todos órgãos de imprensa que discordaram do golpe e da ditadura, enquanto a maior repressão da nossa história recente se abatia sobre milhares de brasileiros presos, torturados, exilados e mortos, enquanto isso, as dinastias da imprensa mercantil se calaram sobre a repressão e apoiaram o regime militar!

Eram estes mesmos Mesquitas, Frias, Marinhos, Civitas, estes mesmos que transmitem por herança – como se fosse um bem privado – seu poder dinástico, transferindo-o para os seus filhos e netos. Os júlios, os otávios, os robertos, os victor, vão se sucedendo uns aos outros, a dinastia vai se perpetuando. Que se danem a democracia e o país, mas que se salvem as dinastias!

Mas, hoje, elas estão vendo seu poder se esvaindo pelos dedos. Conta-se que um desses herdeiros, rodando em torno da mesa da reunião do conselho editorial, herdada do pai, esbravejava irado: “onde foi que nós erramos? onde erramos?”. Estava desesperado porque a operação “mensalão” não conseguiu derrubar Lula elegendo o tucano, da sua preferência.

Se ele tivesse olhado os gráficos escondidos na sua sala, teria visto que, nos últimos dez anos, as tiragens dos jornais despencaram. A Folha de São Paulo, por exemplo, que é um dos de maior tiragem, perdeu em 10 anos, de 1997 a 2007, quase cinqüenta por cento dos seus leitores! Depois de quase ter atingido 600 mil leitores, vai fechar o ano de 2008 com menos de 300 mil! Uma queda ainda mais grave se considerarmos que, nesse período, houve crescimento demográfico, aumento do poder aquisitivo, maior interesse pela informação e elevação do índice de escolaridade dos brasileiros.

Os leitores deste jornal de direita estão entre os mais ricos da população. Noventa por cento dos seus menos de 300 mil exemplares são destinados aos leitores das classes A e B, as mesmas que não atingem dezoito por cento da população brasileira. Em outros termos, nove entre cada dez leitores do jornal pertencem aos setores de maior poder aquisitivo e suas condições de vida estão a léguas de distância das do nosso povo – esse povo que gosta do programa bolsa família, dos territórios de cidadania, da eletrificação rural, dos mini-créditos, do aumento real do salário mínimo, da elevação do emprego formal, etc.

A última e mais recente pesquisa sobre o apoio ao governo Lula, que a imprensa dinástica procurou esconder, realizada pela Sensus, revela que Lula é rejeitado por apenas treze por cento dos brasileiros! É essa ínfima minoria, cinco vezes menor do que aquela dos que apóiam o governo Lula, que povoa os editoriais dessa imprensa, suas colunas, seus painéis de cartas dos leitores! Esse é o índice da influência real que a mídia mercantil – juntando televisão, rádio, jornais, revistas, internets, blogs – tem! Apesar de todos os instrumentos monopólicos de que dispõem, apesar das campanhas diárias para dominar a opinião pública, não conseguem nada além desse pífio resultado dos treze por cento que representam!

As dinastias podem continuar a ter filhos, netos e bisnetos, mas é possível que já não dirijam jornais. Esta pode ser a última geração de jornalistas dinásticos que, talvez exatamente por isso, revelam diariamente o desespero da sua impotência, assumindo o mesmo papel que ocuparam nos anos prévios a 1964. É o mesmo desespero da direita diante da popularidade de um Getúlio e do governo Jango. Nos dois casos, só lhes restou apelar à intervenção das Forças Armadas e dos EUA, estes mesmos EUA que nunca fizeram autocrítica, nem desta nem de qualquer outra das suas intervenções contrárias à democracia da qual pretendem ser os arautos! Depois de terem pedido e apoiado o golpe militar, porque ainda acreditam que podem dizer quem é democrático e quem não é?

Por Emir Sader