Assim, pela direita, defendia-se fervorosamente que a rebeldia contra Sistema, tinha muito mais a ver com um choque edipiano de gerações do que com a luta de classes e os fatores econômicos E, pela esquerda, os mais empedernidos, numa ação reflexa, ignoravam toda a teoria freudiana, assim como até hoje há ingênuos que ignoram Darwin.
De um lado, via-se a revolta juvenil, mesmo quando ela ganhava as ruas, como um distúrbio temporário de comportamento: nada que um bom divã ou uma boa carteira de trabalho não possam resolver. Do outro lado, torcia-se o nariz para a teoria dos complexos de infância: frescura de burguês: nada que uma enxada e uma vassoura na mão não possam resolver.
Não me tomem por leviano, nem pensem que pretendo reduzir nossa discussão a uma sucessão de frases jocosas. Só direi que um pouco de vaselina não faz mal a ninguém. E, dito isto, reparem na frase de Freud aí em baixo:
“A força propulsora básica da sociedade humana é, em última análise, econômica: já que a sociedade não possui reservas suficientes para manter seus membros sem que eles trabalhem, precisa limitar o número desses membros e desviar suas energias da atividade sexual para o trabalho. Esta é a eterna e básica exigência da vida, que persiste até hoje”. Assim, pois, ele explicava, nas razões econômicas (uma tese marxista), a origem primeira da repressão sexual que dá origem aos complexos por ele estudados.
Pelo lado de Marx, é conhecida sua teoria sobre a luta de classes, o motor da História. Luta esta que faz com que o Sistema internalize (geralmente via religião) no núcleo familiar básico, sua ideologia e, portanto, sua repressão. Eis ai como Marx antecipa, a figura repressora tão conhecida hoje do pai-patrão que, por sua vez, está no núcleo da teoria edipiana.
O leitor mais inteligente – e felizmente todos os meus o são – já deve ter concluído que não faz sentido falar em liberação sexual apenas, desvinculando-a da outra repressão (opressão) que corre em paralelo: a exploração do trabalho alienado, aquele que vendemos apenas para comer e dar de comer aos filhos, sem fazer qualquer tipo de consideração sobre se este tipo (ou quantidade) de trabalho é realmente necessário para a melhoria da qualidade de vida da humanidade como um todo.
Na verdade, o trabalho alienado e seu excedente têm como função essencial (exclusiva) propiciar a acumulação do Capital. Trata-se, portanto, de uma disfunção. Disfunção esta que destrói a Natureza, assim como o câncer (produção excedente de células) destrói o corpo humano.
De tudo isto, pode-se chegar à conclusão de que a liberação sexual, representa importante avanço cultural, psicológico e também político, como é o caso das mulheres e dos homosexuais. Mas não é só isto: o realmente importante é que, cedo ou tarde, este processo é canalizado para a luta ideológica. Entretanto, na atual fase, a liberação sexual ainda está muito mais para a farsa que consiste em fazer supor que estamos sendo liberados, quando continuamos presos ao fetiche na maioria dos casos. E isto transforma a liberação em mera libertinagem.
Até agora, o que ocorreu de forma realmente consistente foi a liberação da comercialização degradante e desenfreada do sexo. Sexo que, enquanto mercadoria que é na sociedade dominada pelo Capital, representa um negócio planetário superior ao do petróleo.
A mídia capitalista aposta na nossa liberação para continuar com a venda crescente de suas mercadorias sexuais, principalmente as de carne e osso. Mas não quer que concluamos que a liberação real só ocorrerá quando mandarmos a exploração capitalista para o espaço.
Por Francisco Barreira


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